quinta-feira, maio 10, 2007

Driblando o desemprego com trabalho informal


Vendedor de churrasquinho conta como venceu o desemprego através do trabalho informal

Por Débora Suellen

No mês que se comemora o dia do trabalho é imprescindível não se referir a profissionais que driblam o desemprego e garantem uma renda extra através da informalidade. Os trabalhadores informais dividem-se entre aqueles que trabalham por conta própria e estão empregados, porém sem carteira assinada.
André Luiz Santana de Oliveira conhecido como Deco Espetinho é um entre os 48,5 milhões de brasileiros que trabalham na informalidade. Deco e mais dois ajudantes trabalham fora das regras trabalhistas, sem carteira assinada, sem pagar impostos vendendo churrasquinho de carne para driblar o desemprego.
Em uma mureta a churrasqueira é posta junto com a caixa de isopor das bebidas. Para sentar, banquinhos de plástico completam o cenário do churrasquinho que tem agradado todas as classes, visto que alguns clientes são de classe média. Faça chuva ou faça sol, o espetinho tem horário marcado, sempre ás 18h. Com chuva, as pessoas ficam embaixo de um sombreiro.
Inteligência aliada á competitividade - Há também os que preferem pedir no Drive-Thru levando para viagem ou comer no carro. E como a propaganda é a alma do negócio, Deco conta com uma promoção que atrai risadas, mas também olhares curiosos. Trata-se de um desafio que é quebrar o recorde de quem comeu mais espetinhos e como recompensa ganhar mais um. O espírito competitivo das pessoas, já rendeu bons lucros.
O espetinho - “que não é de gato”, revela - custa R$ 1,80 e sustenta a família de quatro pessoas de Deco. Localizado no bairro de São Rafael, o churrasquinho conquistou freguesia não só entre moradores do bairro, mas de outras pessoas que se deslocam de outros bairros para comer o espetinho.
“Sinto muito satisfeito por esse reconhecimento por parte dos meus clientes. Quando tem alguém que vem pela primeira vez e retorna fico muito feliz. É sinal que meu trabalho está tendo rendimento. O dinheiro é muito importante, mas o reconhecimento sem dúvida tem sido maior recompensa”, entusiasma-se.
A conquista da freguesia - O comerciante David Moitinho Dourado morador do bairro Horto Florestal trocou o requinte de churrascarias por o espetinho. “Fui apresentado ao sabor do churrasquinho pela minha namorada Luciana. O ambiente é agradável, além da economia por que ao contrario das churrascarias da cidade, se paga menos por uma boa qualidade”, diz Dourado.
A professora Luciana Queiroz Bonifácio mora no bairro da Vitória e considera-se freguesa do espetinho do Deco. “Já conhecia o tempero do André através de amigos em comuns. Ele era convidado fazer os churrascos da galera, então resolveu abrir esse negocio. Sempre que posso venho aqui, vale à pena deslocar de tão longe para apreciar um bom churrasco”, afirma Luciana.
A idéia do espetinho nasceu nas farras de finais de semana em que Deco era convidado sempre pelos amigos a temperar a carne. “A minha contribuição era temperar a carne, na hora da necessidade resolvi aproveitar disso para ganhar dinheiro, meus amigos que reclamaram por que agora estão tendo que pagar para comer do churrasco”, brinca.
Luta contra o desemprego - Desempregado, André resolveu vender churrasquinho como forma alternativa de ganhar dinheiro e garantir o sustento da família. O negócio deu certo e depois de três anos, conquistando uma freguesia fiel, não quer deixar de ser empresário do comércio informal.
“Estou muito satisfeito com meu comércio, antigamente trabalhava para ganhar um salário mínimo por mês, enquanto hoje posso tirar isso em um final de semana. Não acho que o comércio informal seja algo que deva ser considerado ilegal, o que importa é que estou ganhando meu dinheiro de forma honesta”, desabafa.
Deco sonha alto sem tirar os pés do chão, planeja abrir um negócio com as vendas de espetinhos ou uma churrascaria. Através dos lucros do churrasquinho em São Rafael, abriu uma filial em Colina de Pituaçu.
“Estou juntando minhas economias para abrir uma rede de espetinho e futuramente uma churrascaria. A partir do momento que tive meu comércio, pude ganhar um pouco mais e estar mais próximo da minha família. Hoje não tenho que limitar a férias do trabalho, viajo com minha família e posso estar mais próximo deles”, diz.
Deco não é uma pessoa que se possa resumir em poucas palavras, é muito mais do que o carisma e a popularidade que aparenta. É um homem de sonhos, que acredita em um mundo melhor, que quer proporcionar aos filhos um futuro digno, ensino e vida de qualidade como talvez a que não teve. É um brasileiro que tenta ganhar a vida de maneira simples e honesta, mesmo que não esteja dentro das leis. Deco representa um entre tantos brasileiros que tentam ganhar a vida como podem.