segunda-feira, março 24, 2008

Evangélicos no Poder

O crescimento cada vez maior dos candidatos da Igreja Universal na política

Por Débora Suellen

A Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) tem conquistado força dentro do campo político. O que para uns têm sido uma ameaça política, para outros representa a força e o avanço dos evangélicos que representam 22% da população, segundo a pesquisa realizada pelo Datafolha em 16 de abril de 2007.

Os evangélicos tornaram-se o segundo maior grupo religioso do país e uma forte força política, constatado através da eleição de evangélicos e a fidelidade de votos por parte dos fiéis. “O ingresso dos evangélicos no meio político comprova a possibilidade democrática de participação e representa uma fonte de mobilização política de setores sociais menos favorecidos”, alega Eronildes Vasconcelos (DEM-Ba), vereadora e obreira da IURD (chamados internamente de obreiros os membros encarregados de auxiliar na organização do culto e encarregados da evangelização).

O levantamento feito em 10 de outubro de 2006, pelo Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), no Congresso, mostra que a bancada evangélica tem 36 parlamentares e quatro senadores que têm mandato até 2011. Entre os senadores está o principal interlocutor da bancada, Bispo Marcelo Crivella (PRB/RJ), da IURD.
Os dados são bem inferiores em relação aos deputados estaduais baianos, entre os 63 parlamentares, apenas cinco são evangélicos, segundo os dados da secretaria geral da mesa da Assembléia Legislativa. Já na Câmara Municipal, entre os 41 vereadores, nove são evangélicos, de acordo com o presidente da Câmara Valdenor Cardoso (PTC-Ba).

A vereadora Eronildes compreende como necessário a representação política dos evangélicos nas casas legislativas. “Os evangélicos são um seguimento organizado e tem que ter representatividade política. A igreja hoje pode ser considerada aquela que faz maior papel social dentro de um país, por isso se faz necessário que ela tenha sua representação o que não significa que ela tenha interesse de se expandir politicamente, o que ela tem interesse é na propagação do evangelho”, alega.

Mídia e Política - O jornalista e mestre em História Social José Carlos Peixoto Júnior, atribui o ingresso dos evangélicos na política ao uso da mídia. “O avanço dos evangélicos na política representa um projeto econômico bem articulado e a mídia é o principal instrumento para essa construção. Quanto mais expande o jogo político, concomitantemente se expande no jogo midiático. A IURD, por exemplo, através da mídia tem ampliado sua influência e conquistado visibilidade política”, acredita.

O pré-candidato da Igreja Universal para as eleições municipais de 2008 é o apresentador do programa televisivo Balanço Geral da TV Itapuã, Raimundo Varela. Varela se diz ‘candidato do povo’ e desmente a hipótese de ser candidato da Igreja Universal. “Não sou candidato da Universal, eu sou candidato do povo. O povo tem dito nas pesquisas, tem indicado meu nome já alguns anos desde a eleição de João Henrique, naquela época eu tinha 28% da preferência, no entanto não estavam nos meus planos de entrar na política.”afirma.

Para a obreira e jornalista Cíntia Carneiro, Varela tem utilizado a mídia para se promover politicamente. “Varela insiste em uma coisa nada inovadora que eu particularmente não acredito, por que com vidas não se brinca, especialmente quando se trata de vidas carentes. O fato dele ainda ocupar um lugar de audiência na televisão baiana tem relação com a carência da população. O carisma e renome que ele tem é devido aos que participam do programa ”, alega.

Segundo Junior, Varela é homem-chave no projeto político-econômico da IURD na Bahia. “Ele é o comunicador que ajuda construir a idéia de uma justiça embalsamada. Tem grandes chances de ganhar, pois está na mídia e angaria muitos pontos, no entanto sua eleição para prefeito de Salvador vai depender da correlação de forças políticas, ou seja, das outras candidaturas”, analisa.

Histórico Político – Segundo a matéria publicada no Correio Braziliense em 12 de outubro de 2002, o apoio de líderes evangélicos fizeram grande diferença nas eleições presidenciais de 2002. Lula teve apoio declarado das igrejas Metodista, Batista, Sara Nossa Terra, Igreja Universal e pastores da Assembléia de Deus, que não seguiram a decisão das duas principais convenções da igreja de apoiar Serra. “Foi o momento na história em que houve maior aproximação entre política e religião”, analisa Junior.

Os evangélicos também demonstraram sua força política nas eleições pelo governo da Bahia em 2006. Segundo matéria publicada no jornal A Tarde dia 2 de outubro de 2006, o Bispo Átila Brandão, líder da Igreja Batista Caminho das Arvores teve um número bastante significativo de votos e foi o terceiro colocado com 3,09% dos votos válidos. Átila Brandão é do Partido Social Cristão (PSC) e formou uma coligação com o partido do prefeito de Salvador, João Henrique, que também é evangélico.

“As igrejas pentecostais tem se baseado em uma nova ética política em que a corrupção é a antítese dos princípios cristãos. Para a maioria dos fiéis, votar não significa apenas um exercício da cidadania, mas um exercício de fé e defesa aos direitos dos evangélicos, por isso é que existe a prioridade em eleger homens e mulheres cristãos”, afirma Eronildes.

Política da Universal - A IURD iniciou a trajetória política em 1986 com a eleição de um Deputado Federal, de acordo com o artigo publicado na Revista Brasileira de Ciências Sociais em Outubro de 2003. Segundo matéria publicada no Jornal Folha de São Paulo no dia 15 de Dezembro de 2005, a IURD conseguiu em 2005 o registro oficial de um partido político, o Partido Municipalista Renovador, que posteriormente recebeu o nome de Partido Republicano Brasileiro (PRB).

Na Bahia, a influência da mídia e do apoio político dos fiéis iurdianos, está explicito com a eleição do ex-deputado estadual Bispo Marcio Marinho. O radialista e Bispo da IURD foi eleito em 2002 com 47.516 votos, de acordo com dados da Assembléia Legislativa.

Do ponto de vista cultural e religioso, Junior acredita que o Brasil é um país plural, em virtude à diversidade religiosa, no entanto, para ele, não é descartado um projeto evangélico de poder político-econômico. “Caso algum grupo evangélico atinja o poder político máximo no país representará interesses econômicos e não necessariamente um domínio religioso. Se um dia algum grupo evangélico quiser exercer uma dominação religiosa e cultural será imediatamente repelido devido ter uma considerável predominância católica”, adverte.

Para Junior, religião não deveria interferir nas questões políticas e um candidato deveria enfrentar uma eleição independente daquilo que crê. “Em um país democrático religião deveria e deve ser do fórum privado das pessoas, já que a democracia pressupõe estados laicos, sem religião oficial. Portanto, qualquer pessoa que queira se candidatar a um cargo no legislativo ou executivo pode fazê-lo, independente da sua fé”, conclui.